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Ter-te comigo faz-me acreditar no karma e em todos esses clichés do “What goes around, comes around”.
Sentia-me frustrada e com intenções furadas a cada ano que passava. A cada relação fracassada. A cada mentira que eu vivia. A cada ilusão que me hipnotizava e a cada ferida que abria.
Os meus olhos conhecem os teus há mais tempo do que a minha alma conhece a tua mas nunca eles sentiram, antes,  interesse em aprofundar o que viam, é verdade. Até um certo dia chuvoso de Inverno . Era de noite e estávamos, ambos, na mesma localidade, na mesma rua, no mesmo espaço nocturno, no mesmo grupo de amigos. Os teus olhos, cor de mar, e a tua postura transpareciam um comportamento inofensivo e intimidante, ao mesmo tempo. Por estares num ambiente familiar, estavas de sorriso posto, gargalhadas engraçadas e piadas privadas de rapazes mas quando o nosso olhar trocava-se, eu sentia o teu nervoso miudinho que palpitava nos raios da tua Íris. E eu sentia-me uma míuda com esse mesmo nervoso miudinho.
O que me despertou a atenção foi exactamente a diferença nos teus olhos, quando olhavas para mim, entre conversas e brincadeiras com o pessoal. Eu fingia que não percebia, apesar de adorar essa especial atenção no meio de tantas outras mulheres mais bonitas, mais vistosas, mais disponíveis que eu, naquela noite. O que me fez querer perceber e conhecer esse olhar distinto surgiu depois, longe das luzes e da música e de toda aquela folia festiva quando eu decidi ir embora. Foi ao acaso ofereceres-te para me mostrares o caminho de volta para a auto-estrada mas não foi por acaso que me pediste, quando paraste o teu carro ao lado do meu, antes de seguirmos caminhos diferentes, para eu te procurar no facebook e avisar-te quando chegasse a casa, sã e salva. Essa tua demonstração de preocupação fez-me ocupar a cabeça durante toda a viagem. Nem desconfiava desse teu “tu”. 
De todas as vezes que nos vimos, antes daquela noite, estavas com os teus amigos e, talvez por isso, para mim, tu eras apenas e tão só um rapaz com um ar um pouco egocêntrico, com piadas meio machistas e conversas pouco coerentes, aquelas típicas entre rapazes que são amigos de longa data e ainda vivem as crianças dentro de si, quando se juntam. Mas ofereceres-me a tua simpatia e preocupação apenas com uma mensagem em troca, fez-me ficar curiosa... e decidi enviá-la, tal como pediste. Fi-lo de pé atrás, não nego. Hábito meu. Medos meus… porque eu sabia que estava a compactuar com algo que eu própria decidi: dar, a mim própria, a oportunidade de conhecer alguém, mesmo com todas as feridas abertas que eu trazia de um passado conturbado e recente.
E os dias foram passando e as desculpas para falarmos foram aumentando. Quando eu não recebia notícias tuas, ficava à espera. Começava a sentir a falta delas. E comecei a usar a desculpa «de e para ver outras pessoas» para conseguir ver-te a ti, sem te oferecer uma porta de entrada nos muros altos que me protegiam de más intenções. Como não gosto de entrar em ciclos viciosos, decidi dar um pequeno passo neste "típico jogo" da sedução “pré-tudo o que vem antes de se combinar algo a dois ” e organizei um jantar de grupo entre os nossos amigos em comum, onde fiz com que fosses convidado sem que parecesse que eu estava desesperada por voltar a ver-te. Dei o tal “tudo por tudo” para voltar a ver-te, arriscando o facto de perceberes que fui eu que tive a ideia e que fui eu que te quis convidar.
O medo de não ser correspondida, seja em que âmbito for, para com as diversas relações sociais que tenho, não me atinge como à maioria das pessoas. Adapto-me aos ganhos e às perdas com alguma facilidade e é por isso que me conhecem um pouco como uma destemida no que toca a relações amorosas e a “mandar-me a pés juntos”. Não gosto muito de jogos psicológicos pré-concebidos nesta área, como se isso estivesse escrito em imaginários manuais de vida.
Agora que olho para isso tudo, vejo que fizeste o mesmo que eu. Aproveitar os eventos de grupo para me ver, mesmo que isso não fosse certo. E eu sorrio quando penso nisso. Graças a esse nosso plano singular, sem que o outro soubesse, vimo-nos algumas vezes até que o "jogo" pediu a próxima fase: um encontro a dois.Na manhã desse dia passei parte do tempo a imaginar como seria. Como serias. Como seríamos. Não sei porque é que dizem “sentir borboletas” no estômago… porque o que eu sentia, ao pensar em ti, não era, decerto, esses bichinhos tão delicados no estômago.
Foi um bom encontro de frente para o mar, com umas tantas cervejas pelo meio e com conversa para um dia inteiro. E o sentimento surgiu, cresceu, fomos colecionando momentos, fotografias, aprendizagens, promessas, planos.
Cada vez mais me questionava àcerca da minha pessoa, a nível amoroso. Como algumas pessoas me diziam, eu era dotada de um “dedo podre”. Já eu cheguei a culpar-me por me mentirem, traírem a minha confiança e destruírem tudo o que eu (achava) ter construído com alguém. Mas no fundo, pelo que ouvia de casos alheios e até mesmo por adjectivos que os meus amigos mais próximos me intitulavam, eu sentia que não era assim “tão má pessoa para não merecer um amor puro” (não vejo uma expressão menos dramática para o que eu pensava). Eu só queria o bem de alguém, fazer bem a alguém que me quisesse o bem também. E construir algo a partir daí..
Hoje eu percebo porque é que nunca deu certo antes.
Era o destino. É nisso que acredito. Estávamos destinados a todas aquelas pancadas, quedas e  dores de cabeça para, agora, as partilharmos um com o outro , de mãos dadas, como se de más fotografias falássemos.

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